Ficção -> Conto
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ilustração


Indez


 

 Ana caminhava contrariada de volta ao galpão carregando o ovo. Resmungava. Tinha adquirido recentemente a mania de resmungar quando estava aflita e isso era bom, não por que assim resolvesse problema algum, mas porque simplesmente sentia prazer em resmungar. Esse hábito, embora não combinasse com seu papel de boa meninota, acrescentava-lhe complexidade, não se podia negar, além de parecer uma forma inofensiva de protesto. Assim ela caminhava naquela tarde, resmungando um ininteligível esconjuro e seguida de perto no trieiro pelo cão. A certa altura o animal lhe trombou nas pernas e quase a derrubou no mato alto que a grama tinha se tornado e Ana, sempre tão amiga dos cãezinhos, o repeliu com um safanão. 

 Desculpa, Sansão, desculpa, não é nada com você, desculpou-se ela sem necessidade, uma porque aquele cão era acostumado à dureza do campo e outra porque seres desse tipo são incapazes de expressar rancor. De qualquer forma o animal recuou e, como que ensaiado, continuou a segui-la à prudente distância de alguns passos, de onde ainda assim era possível acompanhar o pêndulo feito de braço e ovo.

 Embora inútil, o pedido de desculpas da menina ao cachorro era sincero. Ela descontara a chateação no bicho, no pobre bicho fiel que há nem uma hora atrás também a seguia até o mesmo galpão após procurar por ninhos em todo o canto, saltitando do caminho batido para o mato e do mato para o caminho, num sorriso de língua para fora. Há nem uma hora atrás ela havia tido aquela ideia acerca dos ovos, e adivinhara uma ideia muito esperta a qual especialmente os meninos, tão ocupados fazendo o jogador de futebol e o pescador, nunca poderiam ter. Há menos de uma hora ela se lançara a uma caça aos ovos assim que viu a velha cesta jogada na despensa.

 Ana, não pode ir pegando todos os ovos, tem que deixar pelo menos um, minha filha, disse a avó com a mesma fala mansa de sempre, tem que deixar pelo menos um no ninho, senão a galinha não bota mais. Dado a natureza das galinhas, era preciso pois que pusessem ovos, isso era claro. O que era obscuro era a sugestão de que aquelas aves tinham, além da consciência de maternidade, também a de propriedade, e além disso administravam seus estoques de um jeito peculiar. E justamente por serem personagens contábeis, que diferença lá faria um ou zero ovos, uma vez que a conta não fechava de qualquer forma?

 Notando a expressão confusa da menina, a avó tentou explicar: É que elas se contentam com um só para continuar botando, se tiver pelo menos um elas botam mais; vai, filha, pega um e devolve no ninho antes da galinha voltar, disse ela. E Ana, absolutamente nada menos baratinada e sem espaço para improvisar, agarrou um ovo qualquer e deu meia volta. 

 Fazia um sol de rachar àquela hora da tarde e o caminho da casa até o galpão tinha uns bons duzentos metros, o que contribuía para a má vontade daquela menina que na cidade não andava nem metade disso por dia. Mas não se tratava só do calor e da distância. Também não se restringia à pequena humilhação de descobrir-se ignorante em matéria galinácea e ter de reparar um pequeno engano oológico, até por que os ovos restantes prometiam gemada e bolo. Era outra ignorância sua assim exposta que a incomodava.

  Sim, porque, de repente, aquelas aves de modos estúpidos que abandonavam estupidamente o ninho ao inimigo eram agora criaturas atuantes. Se como a avó dissera precisavam de um único ovo para seguir botando e chocando, então decerto entendiam de gerenciamento de crises, de redução de danos e de preservação da espécie. E se assim procediam era razoável pensar que atuavam em consórcio, especulando enquanto ciscavam e tramando nas coxias atrás dos cochos. Tudo isso dissimulado em có-có-cós cínicos agora revelados, tudo tão perfeitamente animalesco que fazia Ana se perguntar há quanto tempo repassavam aquela peça e desde quando encenavam aquela farsa. Cacarejar de uma hora para outra era dramático e premeditado.

 E foi justamente o cacarejar caótico que fez Ana parar às portas do barracão, pois uma algazarra inédita vinha lá de dentro. E se as galinhas não fossem as únicas, e se houvessem outras tantas conspirações escusas, tantos submundos com encenações próprias que ela desconhecesse? E se a vida fosse regida por um sem fim de organizações mambembes, cada uma sem ciência da outra, ou pelo menos, ela, Ana, sem conhecimento de nenhuma?

 Olhou para Sansão como quem olha para um oráculo, mas o cão se limitou a continuar coçando prazenteiramente o flanco com a pata traseira. Que loucura!, disse Ana em monólogo, que loucura pedir conselho a um animal, para com isso já, Ana Cristina, é só um ovo, só a merda dum ovo pra devolver no ninho. Então ela respirou fundo, ergueu a taramela e abriu a pesada porta de madeira. 

 O ranger da porta empenada denunciou sua entrada, ou pelo menos assim lhe pareceu, porque todo o barulho que ouvia de fora cessou. É tudo da minha cabeça, tudo eu, tornou a repetir para si. Iluminada pelos refletores esburacados nas telhas caminhou até o fundo do corredor, onde algumas galinhas cruzavam desajeitadas para longe dela e onde a gorda carijó escolhera para construir seu ninho sobre um tablado de caixotes empilhados. Olhou cuidadosamente ao redor e não viu nenhum sinal da ave-mãe. Melhor assim, mesmo sendo só uma gorda carijó, era mil vezes preferível não ter que lidar com nenhuma figura cheia de instintos particulares. 

 Conforme Ana se acostumava ao cenário, também o cenário se acostumava a ela, bem como os seus. Logo as galinhas voltaram a transitar com seus pintinhos de um lado para o outro, ciscando, bicando o chão, catando vermes e cagando, indiferentes a ela, estranhamente indiferentes para dizer o mínimo. Ana caminhava pelo corredor como se fosse outro bicho qualquer, tão naturalmente bicho que assim se sentia. Sentia ou era induzida a sentir? Estava tão bicho que podia ver como eles. Via com clareza os piolhinhos por todos os cantos e também as lacraias em exibição. Viu um rato interpretando a sombra pelos caibros do urdimento, catito. Viu uma aranha urdindo teias e outras dependuradas pelos seus cabos invisíveis alçando voo. Viu uma perdiz e uma rola numa coreografia de asas. Viu aparecer bem na sua frente o galo e trepar sem pudor nenhum numa galinha branca feito noiva, e galar a nubente. E continuava vendo, e vendo muito bem, as galinhas ciscando, bicando, catando, cacarejando e fornicando como se fosse natural. Afetadamente natural. E então Ana gritou.

 Ana soltou um grito de pavor absoluto, um grito horrível de quem acabara de descobrir a verdade depois de doze anos à margem de todas essas verdades escabrosas. Um grito que assustou a animália figurante, mas que foi devidamente abafado pelo zurro da mula e o cigarreio da cigarra em timming perfeito. Não, nada daquilo jamais poderia ser tocado e a vida deveria seguir na mais sinistra verossimilhança. E Ana, entendendo rapidamente o recado da natureza, largou o ovo indez e saiu correndo o mais depressa que pode pela porta, pela vereda, pelo mato, pelo holofote do sol até sombras e então saiu de cena. 

 Quem inadvertidamente entrasse no galpão e visse no último ato Sansão, o cão da fazenda, engolindo de um golpe o ovo quebrado com casca e tudo nem pensaria coisas nem nada, veria só o cão aproveitando uma oportunidade. Outro mais sensível perceberia a mesura e aplaudiria o espetáculo.



21/11/2025 08:44




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